segunda-feira, 2 de novembro de 2009

POETIZANDO

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Todos os dias
um poema é escrito
pela vida

Principalmente
quando
a fogueira se apaga

E a cinza
nos mostra
a alma das coisas.

Heitor Humberto de Andrade



Embora a obra poética não objetive exatamente a compreensão analítica, muitos reclamam da total ausência dela. Os que declaram nada ver em poesia ou nada dela apreender são o alvo deste quase despretensioso comentário.
Heitor de Andrade, no vigor de sua prolongada juventude, inspira-nos a ver a vida como poetisa para quem o existir e o fim da existência mutuamente se explicam e se completam. Não o existir humano, talvez, mas qualquer existir; ou etapas do existir. Segundos ou anos encerram sucessivos ciclos de chama e cinza.
Que cada um compreenda, poeticamente.


Sabino Horta

domingo, 1 de novembro de 2009

Imagens projeto Viva Arte - primeiro dia

Viva Arte

Fui apanhado por um sentimento de inquietude. Embora os saraus sejam alegres e aconchegantes, negam à poesia e ao poeta o merecido destaque. Uma cidade de tamanha visibilidade, Brasilia podia tornar-se uma exposição viva de poesia.
Caminhando pelo Parque Olhos D'agua, na Asa Norte de Brasilia, vi o ambiente perfeito. Propuz a implantação de uma exposição permanente de poesia. A aceitação foi surpreendentemente pronta. Lancei-me ao trabalho e, uns quarenta dias depois, inaugurei o projeto piloto no aniversário do parque (setembro/2009).
Eu já não estava só. Contava com a parceria do amigo jornalista e artista plástico Marinaldo Serejo e com o apoio do poeta e compositor João Feijão, superintendente da Fecomércio-DF. Crescia minha minha alegria com a receptividade do projeto por celebridades culturais da Capital: o poeta Antonio Miranda (diretor da Biblioteca Nacional de Brasilia) e o editor Vitor Alegria (Editora Thesaurus) foram os primeiros de uma série.
Hoje são dez poemas expostos, breve serão doze, que serão substituidos quinzenalmente, e o projeto vai se fortalecendo ampliando, enquanto ganha forma e estrutura operacional para alcançar outros parques do Distrito Federal e, esperamos, as avenidas de Brasilia.
Nossos esforços agora incluem a adequação do projeeto à Lei Rouanet, de incentivo à cultura, o lançamento do site http://www.vivaarte.art.br/, para receber os poemas que serão publicados e a composição do juri de notáveis que selecionará os poemas a ser publicados e premiados.
Por agora é só.

Hézio

domingo, 5 de julho de 2009

REVELAÇÃO



Não busco nova odisséia.
Uma caminhada, talvez.
Quando menos, limpidez.
Ser Chaplin fazendo Maquiavel.

Somando na aquinhoada,
Subjetivando a devassidão,
Reinvento anulada utopia,
Inviabilizando a devastação.

Fiz-me devasso na incontinência.
Sendo um rosto que se contingencia,
Para sarcásticos me servi de pasto,
Inda que, digo, de glórias me afasto.

Em cada prato, uma idiossincrasia.
Em cada fato, muito novo se faria.
Em todo o caso, me assombraria
Esse notável amodernado mundo.
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O pedinte

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- Ei, cara! Você me pediu esmola há pouco, na porta do banco. Tá aqui, bebendo cerveja numa boa
- Eu?! Assim o senhor me ofende, professor. Por favor.
- Como não?! Me lembro bem da sua cara, rapaz. Você é um falso pedinte, fingindo necessidade. E eu, bobo, coração mole ... você devia ser preso, safado.
- Doutor, o senhor está me insultando.
- Então, o que você me diz, canalha? O-que-vo-cê-me-diz?
- Procure entender, autoridade. Eu sou ator. O senhor já viu o Herrison Ford... o senhor sabe quem é ... o Indiana Jones. O senhor acha que ele é arqueólogo? Ele é ator, excelência, e ganha milhões. De dólares, majestade ... fingindo. Eu finjo ser mendigo ... só isso. Não tenho direito a cachê, nem tenho produtor, diretor, essas coisas - ainda. Recebo a bilheteria diretamente. Sabe como é. Assobio e chupo cana.
- Mas o Indiana Jones é do cinema. E você, seu pedinte de araque.
- Sou ator de rua, doutor. Mambembe.
- Bonito, rapaz ... você me enganou ... é isso.
- Sou razoável, meu rei. Bonito mesmo é o Rodrigo Santoro. Que, aliás, ficou famoso e rico fingindo ser louco. Louco e bicha – coisa horrorosa, vocês não acham?
- É, mas lá se tratava de ator consagrado. E você, quem é?
- Sou aspirante, meu ídolo. E feio, fazer o quê. Mas o Grande Otelo; o senhor sabe quem foi Grande Otelo? Um cara feio pra cacete, que fez papéis engraçadíssimos e virou celebridade.
- Além de ator – de intérprete, não, de falso comediante, ainda é bom argumentista.
- Obrigado, companheiro, nada melhor do que ser reconhecido profissionalmente. Vejo que você também engana. É do ramo e eu duvidei de sua arte.
A esta altura, o debate que se iniciou como uma repreensão, resvalou por uma briga com xingamento e ia se encaminhando para um acordo, já tinha uma platéia de não sei quantos. Sabe como é cidade grande. Tem sempre platéia para o bizarro e para o cômico. O bar lotou. Só o garçom não assistia – ocupadíssimo.
- Então, colega, pra que você se convença, vou representar o Capitão Zeca Diabo – lembra-se?
- Vamos ver, faça a cena. Já que todos aqui lhe compram como ator.
- Mas você vai ter que fazer o prefeito Odorico Paraguassú. Você consegue, figurante. Acredite.
Começaram ambos a fazer seus papeis. Meia hora de riso geral. A turma aplaudiu calorosamente. O falso pedincho de araque passou o chapéu. Todos contribuíram ... uns duzentos reais.
Saíram juntos. A cerveja e o tira-gosto ficaram por conta da casa.

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domingo, 31 de maio de 2009

BRASÍLIA x PARIS

Comparar cidades nem sempre é pouco auspicioso.

Cada metrópole, cidade ou lugarejo tem características peculiares, é verdade. Mas fiquei orgulhoso, como brasiliense de coração, ao ouvir uma comparação, dias atrás.

Numa noite de autógrafos no espaço Assis Chateaubriand, no Correio Braziliense, falávamos sobre o aumento do número de salas de espetáculo teatral e de muitos outros espaços destinados à arte, à cultura e ao entretenimento.

“Brasília está se tornando uma nova Paris”, disse-me o meu amigo Heitor (o craque do teatro do improviso. Não, não ... do imprevisto).

Pensei nisso. Paris é uma cidade luz num amplíssimo sentido, mas o é principalmente no sentido cultural.

Brasília, capital do terceiro milênio, merece a comparação e, nisso, há um importante pormenor: Brasília é linda, fácil e acessível, com seu traçado urbanístico magistral e incomparável. E ha muitos espaços atualmente mal utilizados – característica da maturidade – quando a cidade alcança seus 50 bem vividos anos.

A nova acomodação que atende aos reclames da população desobedece à fidelidade à setorização inicialmente concebida e vai gradativamente se repensando, atenta aos reclames daqueles a quem a cidade se destina.

Em endereços outrora impensáveis, hoje se abrem pequenos e aconchegantes espaços adaptadíssimos - o povo agradece.

Os que ainda duvidam do interesse da população distritofederalense por cultura, saibam: a variedade da oferta e a multiplicidade de formatos e abordagens atrai pessoas e as influencia positivamente.

O interesse dos que aqui vivem, ao gerar oportunidade, tornando-se um crescentemente poderoso mercado consumidor de arte, altera as condições de sobrevivência do empreendimento cultural – esse pesado e complexo empreendedorismo há de profissionalizar-se ainda mais, em resposta.

E Brasília, gradativamente, fervilhará culturalmente. Não para tornar-se uma nova Paris, mas para assumir seu destino, cumprir seu compromisso e seguir sua tendência de cidade ímpar, poética e profundamente cultural, privilegiando quem primar pela qualidade.


Sabino Horta